quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Entre Houaiss e ciganos: o que pode e o que deve essa língua?



Entre Houaiss e ciganos: o que pode e o que deve essa língua?

Por Jocenilson Ribeiro

Depois de ler e reler as matérias no portal UOL e na Folha [cf. textos clicando nos links] e de conversar com amigos e colegas especialistas ou não no assunto, exponho o que penso a respeito. Respeitando o lugar dos especialistas em dicionário (lexicologia, lexicografia etc.), emito minha opinião a partir de concepções gerais da Linguística e daquelas disciplinas em tempo de graduação.
Qual é a função primeira de um dicionário? Penso que seja apresentar - grosso modo -, aos falantes de uma dada língua, os termos que compõem o léxico desta língua. Contudo, existem vários tipos de dicionários, que variam conforme função, especialidade, modalidades (bilíngues; monolíngues), tamanho (mini, “completo”) etc. Um dicionário é o lugar em que se “estabilizam sentidos”, lugar onde elas, as palavras, dormem; seus sentidos ali são latentes, mas o funcionamento delas se dão no ato de enunciação (cf. Benveniste, 2005), no momento em que enunciador e enunciatário em situação concreta fazem HAVER SENTIDOS; portanto, isso ocorre fora dessa gaveta que se chama dicionário.
Não podemos perder de vista o seguinte: o trabalho lexicológico deve apresentar os significados, a origem, a morfologia, o conceito e o uso de termos/palavras numa comunidade de falante - seja ela em nível local, regional, nacional, internacional... Então, visto assim, podemos dizer que esse trabalho é analítico e descritivo, porém, jamais prescritivo, normativo e censurador porque não cabe a esta ciência (e acredito que com as outras não deva ser diferente frente a seus objetos) omitir o uso e determinadas características destes termos ainda que eles apareçam nas situações reais de fala e de escrita.
Recentemente, passamos a notar que o verbo FICAR, por exemplo, passou por um processo de semantização, diferentemente daqueles usos com os quais estávamos acostumados.  A acepção ganhou sentido(s) afetivo(s) que varia(m) gradualmente conforme grupos de sujeitos, temporalidade nas relações de “namoro” etc... O dicionarista precisa então atualizar o dicionário o tempo todo porque o léxico de uma língua é vivo e movente, jamais se estabiliza como talvez queira e/ou pense o MPF (Ministério Público Federal) para com o tal do Houaiss.
Então, diante dessa minha longa argumentação, é papel do linguista (seja um lexicólogo, lexicógrafo, dicionarista, terminólogo etc.) descrever os fenômenos linguísticos - neste caso o surgimento, a origem, o uso de termos etc. – como aparecem ou apareceu num dado tempo na sociedade. Se ele é ou não pejorativo, se ofende ou não, se atende melhor a este ou àquele grupo social, não cabe ao dicionarista tomar esta ou aquela posição, que apenas deve por em dicionário tal como o uso aparece. Nada o assegura de que tal uso vai se estabilizar. É claro que, em práticas científicas, não se anula nunca as escolhas, os valores, as posições ideológicas, as determinações dos sujeitos envolvidos sejam eles na condição de observador ou de observado. Engana-se quem acredita que isto não acontece.
Ocorre que esta medida infundada do MPF, com base nessa vontade de verdade (para usar uma acepção foucaultiana, Cf. Foucault, 2002) assentada nas práticas discursivas do politicamente correto, vai de encontro com o trabalho científico, porque o objetivo é censurar, normatizar, prescrever, proibir, abonar, calar ... com base no que se deve ou não dizer numa língua. O problema então é de outra ordem: façam-se então dicionários didático-pedagógico-doutrinantes, não aqueles capazes de apresentar como os fenômenos linguísticos têm se manifestado. O preconceito, os estigmas, a manutenção dos estereótipos surgem e se perpetuam da e na sociedade, partem das pessoas, das instituições; o dicionário é um mero instrumento que apresenta uma faceta muito mínima de suas práticas, dando-nos a ver como se pensou e ainda se pensa, ainda que em forma de recorte, num lugar e espaço.
É ingênua a tese de que - tentando calar as palavras, deixá-las muda como se isso fosse possível - se mudam as crenças e os valores dos homens. Não! A palavra, por mais cruel que ela venha a ser, é a espessura intersubjetiva dos usuários de uma língua; muda-se o modo de eles agirem no mundo que elas juntamente vão ganhando outras formas, adquirindo novas semioses. Se as noções de “cigano”, vistas no Houaiss, não mais condizem com o modo como pensamos e concebemos as coisas hoje, isso não nega o fato de que condisseram, a sua maneira e em algum momento de nossa história, com o modo de falar e agir no mundo. Então por que tentar bani-las do dicionário? Seria um modo de nos envergonhar de nossas práticas de outrora e tentar corrigir nossos “erros de significação”? Não tenho dúvidas de que, se medidas como essas empreendidas pelo MPF forem levadas tão a sério, nossos sucessores da palavra nos próximos 200 anos vão rir de nossas ingenuidades ou banir de seus dicionários palavras com as quais lidamos hoje tranquilamente e que para eles poderão revelar a maior ofensa, agressividade e mazelas humanas. Quem garante que não vão sentir-se envergonhados com o modo como distribuímos a palavra, a renda, os salários entre homens e mulheres, as práticas políticas, a administração dos bens públicos, o tratamento aos diferentes que constituem nossa sociedade? Do mesmo modo, a palavra – signo ideológico por onde e com a qual construímos nossas máscaras, mas tentamos vender ao outro a nossa maior pureza e integridade subjetiva como se o outro não fosse capaz de nos interpretar a sua maneira e perceber que inconsciente ou não todos nós dissimulamos a vida inteira.
Voltando à questão central, penso que nosso notável equívoco está em acreditarmos que um dicionário – instrumento em que ‘se tenta imobilizar/imortalizar os significados e conceitos’ – dá sentido às coisas, quando, na verdade, é buscando nele as palavras que procuramos construir os sentidos em nosso modo de pensar, de dizer, de escrever... Se fosse diferente, não se veriam várias acepções para um único termo como, por exemplo, FICAR (cf. Houaiss, 2007).
Vai outro exemplo mais ilustrativo sobre o papel do cientista contraposto às vontades de instituições movidas pela vontade do politicamente correto. Se um biólogo descobre que golfinhos machos apresentam comportamentos semelhantes àqueles vistos frequentemente entre “casais” formados por macho e fêmea, simulando uma relação de acasalamento, seu papel é, simplesmente, descrever o fenômeno, mostrar que isso acontece ou passou a ser visto em comunidades desses animais. Não cabe ao pesquisador evitar expor, com base em valores e crenças pessoais de ordem X ou Y, este fenômeno. Por outro lado, é papel do biólogo (com ou não auxílio do livro didático) levar esse fenômeno aos estudantes, à sociedade, a quem se interessar... Se o MPF resolve, por outro lado, proibir o uso do material didático em que conste esse fenômeno, sob pena de que se está tentando justificar ou sustentar a homossexualidade em certos mamíferos (inclusive os humanos), não é mais uma questão de ciência à vista do que o biólogo apresentou, e sim de norma, valor e juízo de direito, a menos que se prove o contrário. Daí, tal ilustração seja perfeitamente cabível para pensarmos na função de um dicionarista, lexicólogo, lexicógrafo, terminólogo etc.
Hoje, parece que mais do que em outras épocas, sob a vulgata do politicamente correto de que falei há pouco, há uma tendência generalizada (leia-se: transcendem-se os limites nacionais) de se proibir o uso de certas palavras: denegrir, judiar, negro, preto, cadeirante, baianada, homossexual-ISMO, palhaçada etc. servem-nos para ilustrar. Muitos esquecem que a origem e a recorrência de termos na sociedade refletem justamente os valores, as crenças, os saberes, as verdades, as práticas, as subjetividades e o modo de ver o mundo e de interpretá-lo pelos indivíduos... se estão corretos ou não, se deveriam ou não usar certos termos e dizer certas coisas é uma questão de mudança de mentalidade individual e coletiva construída na escola, na família e noutros diversos espaços de construção de conhecimento, mas não tentando evitar que este ou outro conceito esteja num dicionário, até porque não se fala qualquer coisa em qualquer momento e de qualquer lugar (cf. Foucault, 2001). Afinal, de que adianta mostrar apenas um SENTIDO POSITIVADO num dicionário se é justamente na vivência dialógica e nas interlocuções que os diversos outros sentidos aparecem, fortalecem-se ou simplesmente caem em desuso? Acho que seria tapar o sol com a peneira, subestimando, desse modo, os usuários de uma língua em pensar com a própria linguagem por meio da qual constroem sua história.
No período presidencial do Lula, alguns inconformados com sua política de cotas e de bolsa família começaram a usar o termo “lulismo” numa concepção depreciativa. Vamos agora fingir que essa palavra não faz sentido e ainda, que ela denigre [ops!], deprecia, a imagem de nosso ex-presidente e por isso precisa ser banida dos dicionários como se ela nunca tivesse existido?
Não estou defendendo que se deva mesmo achar que o termo “cigano” tenha aquela acepção pejorativa e que se mantenha seu ensino e difusão com significados dessa ordem em dicionários. Longe disso. Quero dizer que, se em algum momento de nossa história tal sentido apareceu, isso se deve às condições de emergência da época (cf. Foucault 2008). E deve ser registrado quer queiram quer não, como o termo “baianada”, por exemplo.
Confesso que, quando escutei esta palavra pela primeira vez sendo numa acepção em que se referia a algo ruim, jeito de se vestir maltrapilho e descombinado (fora de etiqueta à Glória Kalil), ou uma barbeiragem no trânsito, fiquei assustado; mas jamais vou impedir que este termo apareça em dicionários nem evitar que alguém a utiliza, afinal, quando a usam não é a minha identidade enquanto baiano que está sendo ameaçada, mas uma forma (ainda que de seu uso eu discorde) de significar as coisas no mundo num olhar interpretativo de determinados sujeitos.
De uma coisa tenho certeza: quando se tenta evitar/proibir/impedir que se diga alguma coisa (tente-se calar uma voz, uma palavra), surge outra com mais intensidade ainda, de modo que a resistência seja fruto de um poder que não se sustenta por muito tempo, estilhaçando-se em tantos outros sentidos capazes de esvaziá-lo ou formar novos centros de poder e de resistência. Penso que é assim que ocorre com as práticas semiológicas e discursivas dos homens para construírem SUA história, evitando as diferentes versões das histórias.






sábado, 11 de junho de 2011

Amor sem I love you...

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Procuro um amor que não esteja ocupado, que não me cobre um tipo de amor qualquer, que não seja de um dia de namorados, nem que se reduza às flores que murcham, às maças que apodrecem e ao chantilly que dissolve. Procuro um amor que não seja comercial, que me aceite como sou, que não se transforme em carnaval. Procuro um amor que seja assim como eu sou, que não se mostre apenas pros outros, que não esteja estampado em molduras, que não me troque num fim de noite de domingo com o argumento de que o dia de se amar já passou. Procuro um amor que não tenha o dia certo pra acontecer, que não tenha a embalagem apropriada, o laço de fitas pra desatar; que não venha em caixinhas de alianças sem compromissos. Procuro um amor sem adereços, frases feitas como “I love you” em coração de pelúcia avermelhado. Procuro um amor feliz, pode ser brega enquanto se o viva, mas livre de qualquer formato já repetido. Quero um amor que não seja construído pelos outros, nem que eu me permita construí-lo sozinho, mas que seja livre de um dia eleito pelo mercado das paixões extravagantes. Procuro um amor assim: longe dos classificados... lamento se um dia eu nunca encontrar.
jr

terça-feira, 17 de maio de 2011

Oh Deus da palavra bélica!

Oh Deus! Por que fizeste de nossas línguas o instrumento da inglória? É culpa tua, Deus, que as confundiste... que permitiste que houvesse tantas línguas quando os homens subiram a maldita torre da discórdia... Agora dá nisso, Deus: a palavra é bélica, por tua causa! Oh homem onipresente, por que não deixaste as coisas como estavam caminhando, subindo, andando, caminhando? Sentiste pena dos homens e meteste as palavras em suas bocas? Por que não deixaste o homem chegar aos céus com seus grunhidos? Oh Deus, só pode ser culpa tua! Eu tenho certeza que aqueles nossos ancestrais, aqueles pais de nossos pais, de nossos pais, de nossos pais que se comunicavam com uma língua só [a bela língua, a língua pura, a mais culta, a divina e santa língua pura]... eu tenho certeza, Deus meu, que quando eles fossem subindo, subindo, subindo, subindo... e de lá do alto, quando menos percebessem, se espatifariam todos no chão em queda livre, e tudo estaria resolvido, porque eles voltariam ao pó esmigalhados. Sorte a tua, Deus, que não deste asas a estes homens ingloriosos, senão até tu estarias ferrado. Agora, só me resta culpar-te com estas palavras, oh Deus santo... Culpo-te, infelizmente, culpo-te porque sou gente, culpo-te porque foste tu, somente tu, que inventaste essa história de dar a palavra ao homem... com ela, tu o fizeste gente... que fala, que caga... não late, mas mente!

jr

domingo, 30 de janeiro de 2011

Come si fa una tesi?

(Foto: J.Ribeiro)

Come si fa una tesi, perguntou o semioticista italiano Humberto Eco a si próprio quando estava escrevendo o belo livro com esse nome. Um livro que nos faz lembrar de manuais de autoajuda. Mas a semelhança da expressão está de um lado, as diferenças entre os gêneros são quilométricas.

Busquei esse título de Eco porque me vejo em uma encruzilhada. Já já direi as razões que me fizeram escolhê-lo.

Há exatos dois anos, num fim de janeiro, estava eu me perguntando: como se faz uma dissertação? Como viver em um lugar onde não se conhece ninguém? Como se faz pesquisa? E se eu não conseguir sobreviver? E se eu ficar doente, quem vai cuidar de mim? Será que vou dar conta de meus objetivos? Quais eram? Eu suportaria o ar seco e o clima bastante frio? Haveria algum choque cultural que magoasse minha subjetividade? Como encarariam meu eu, minha voz, minha fala, meu jeito de pensar, de agir, de lidar com os outros? E se o dinheiro acabasse? E se eu não tivesse chance de sobreviver? E se minha família precisasse de mim com urgência? E como eu suportaria a saudade de meu povo, minha família?...

Eram muitas as indagações. Por outro lado, todas elas precisavam de respostas, ainda que fossem efêmeras. Mas sempre achei que quando as dúvidas me vinham, de um modo ou de outro, eu precisava respondê-las. E isso já me vazia um certo investigador. Eu precisava de respostas... isso não me fazia desistir. Sempre preferi caminhar com uma resposta pouco satisfatória do que com a dúvida de não saber o que teria ocorrido se eu tivesse ido à busca de resposta.

Hoje dois anos depois da profusão de perguntas, eu já tenho algumas e também abri espaço para tantas outras. De lá pra cá, o tempo me deu oportunidade de aprender mais um pouco da vida e evitar que o medo seja maior que meu sonho. Meu objetivo na época, o que me trouxe aqui, foi desenvolver mais uma parte de um projeto de vida, um projeto que escolhi para me sentir bem. Então, para isso, tinha que escrever uma dissertação de mestrado. E com ajuda de professores e amigos – já que nunca estive só -, acho que estou concluindo uma nova etapa, essa parte do que chamei de projeto de vida. Mas antes de concluí-la, já estava traçando novos objetivos, pensando em novos caminhos a percorrer porque devemos nos movimentar o tempo todo. É assim que vejo a vida: um eterno balanço de bambolê que dança melhor conforme o corpo que lhe serve de balanço.

Portanto, minha encruzilhada não é o limo em que me pego no sofrimento; é o ponto em que me encontro comigo e com meus projetos neste lugar de passagem. É sempre o lugar onde eu preciso olhar para trás e avaliar meu projeto anterior, olhar pra frente e ver quais novos caminhos estão diante dos meus sonhos. É o lugar onde eu posso me sentar para formular novas perguntas, encarar as dúvidas, pensar sobre o que eu escolhi para o tempo seguinte... o tempo que me põe em movimento. Por ora, tenho um novo projeto: fazer meu doutorado. E, por isso, tenho clareza de uma dúvida que vai me acompanhar pelos próximos quatro anos: como se faz uma tese?

jr

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A descoberta de si

(Imagem: J. Ribeiro) xx

A descoberta de si

Por Jocenilson Ribeiro

Ao amigo Nagai

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O homem,

a cozinha,

a escola,

a palavra.

xxx xxx

O homem da cozinha

O homem na escola

O homem que cozinha na escola

O homem na escola tentando, cozinhando

O homem tenta decifrar a palavra

O homem, a fome, o saber na palavra

O homem tenta unir o saber ao sabor da palavra.

xxx

O homem e o fê

O fê e o ê

O fê, o ê e o i

O homem e o fei

O homem e o ji

O homem une o ji ao ó

O homem tenta unir o fei e o jó

O homem, feijó

O homem pega o a e o dá

xxx

O homem,

um susto:

o mundo.

xxx

21 de novembro de 2010

jr

sábado, 20 de novembro de 2010

Eu, no mar de um pescador

(imagem: J.Ribeiro)

Eu, no mar de um pescador

Ao amigo Bolongin

Olho o espelho do mar: um pescador sem rede,

e a canoa à deriva cambaleando as ondas.

Tento me ver nos passos que marco na areia:

o tempo passa nas horas que piso, que vivo.

XXX

As nuvens ao alto anunciam a tempestade.

Que venha à força do mar - é bom pra peixe!

Chuviscos de chuvas choramingam sobre mim.

E eu - ali inerte – esperando esta vida aos pingos.

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Tento me ver no pescador, no anzol que há em mim,

mas a vida não passa, vazia, é simplesmente assim.

xxx

Pronto para me fazer de anzol um novo pescador

apenas me vejo andando, um mero sonhador, assim.

Eu sequer percebo que o mar é outro mundo,

Eu sequer percebo que o mar está em mim.

jr

sábado, 16 de outubro de 2010

Um presente simples a um amigo

(Imagem: arquivo pessoal, Foto: J. Ribeiro)

Hoje recebi esse poema de um amigo pedante. É muito “da hora”, como ele costuma falar. Trouxe para o Palatus porque sei que aqui eu nunca vou perdê-lo como geralmente acontece com tantos papeis esparramados em minha vida. Pela amizade literária, eu agradeço-o. Tá guardado, meu nobre.

XXX

Um presente simples a um amigo

XXX

Surgiu, assim, o escrito, que é de e por amizade,

Que não era memória e, mesmo assim, existia.

Há muita amizade quando não se espera amigos

Que é e não é nascida do acaso, mas interdiscursiva.

jr

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Tiririca: o pior é que agora fica!

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Este dia de eleição, como tantos outros, foi mesmo histórico. E a história que aqui se vê não é definida somente pelos pontos positivos de uma campanha intensa, mas por características exóticas. Não diria uma característica boa, ruim, feia, bonita, mas capaz de revelar a complexidade de um eleitor brasileiro heterogêneo. Um eleitor que tem posicionamentos ideológicos distintos, o que demonstra positivamente a postura de um país que permite o funcionamento de direito democrático. Isso não significa que permissão seja ação.

Queria aqui discutir o sentido do voto atribuído ao candidato e agora eleito Tiririca. O que justifica os cerca de 1.353.640 votos para ele? Quem nele deu o voto espera o que de uma política brasileira no geral e no senhor da Florentina de Jesus em particular?

Tiririca candidatou-se para assumir uma postura antieleitoral, apolítica, antipática frente ao destino de um país pretenso a uma boa mudança... sua performance de palhaço, dizem, seria uma forma de atrair os eleitores para se eximir de suas responsabilidades políticas. Como disse, as diferentes posturas ideológicas demonstram o retrato de uma democracia. Logo, votando em Dilma, Marina, Serra, Plínio ou em qualquer candidato, o eleitor estaria apostando numa mudança, numa melhora, com suas próprias crenças. Mas quem votou em Tiririca apostou em quê?

Se eu tivesse o poder e a necessidade de apontar um culpado e as razões que levaram os 1.353.640 a agirem assim, certamente o próprio Tiririca seria o último, porque ele também é vítima de um discurso fundamentado nos ideias da indiferença. E essa indiferença é reflexo de um país que tem e teve muitos políticos que pouco deram exemplo, muitos políticos que cometeram atos ilícitos aproveitando-se do poder que lhe foi dado, muitos políticos que deixaram de lado compromissos com a educação para beneficiarem-se do poder e dos bens públicos.

Se os 1.353.640 de pessoas votaram em Tiririca, em um estado populoso como SP, desperdiçando seu voto, quantos dessas no Brasil fariam o mesmo? Certamente, outros tantos milhões. E pessoas que pensam assim têm uma consciência política, cidadã, particip-ativa às avessas, prova de que lhes faltam informação, criticidade, educação, sapiência de que seu papel enquanto eleitor (seja de direita, de esquerda, de centro-direita, centro-esquerda, da ala de lá ou da ala de cá) é importante para a coletividade. O senso comum repete o seguinte enunciado: os políticos não investem em educação porque querem manter o povo acrítico e fácil de ser manipulado. Agora eu poderia criar um novo: há políticos que não educam o povo e depois reclamam que este não sabe votar. Mas isso não melhora a situação, ao contrário, permite que o discurso de que política é assunto chato, é ruim, não presta e, no Brasil não funciona, só fortaleça um saber medíocre diante das decisões coletivas e um comportamento apolítico do povo.

Especula-se na mídia e fora dela que o voto ao Tiririca é conseqüência de um comportamento crítico, revoltado, inconformado do brasileiro. Será mesmo? Se esses eleitores apresentam tal criticidade, certamente pensariam duas vezes, haja vista que, agindo assim, eles próprios iam perceber que vão pagar o salário e todas as despesas deste deputado federal enquanto nada mudará, e pior que estava acaba ficando.

Agora há quem vá lutar com todas as forças, argumentos, leis eleitorais, medidas etc. a fim de desautorizar a candidatura do palhaço, acreditando que sua figura é incompatível com o cargo a que se candidatou. Recentemente se tentou fazer isso com o argumento de que ele era analfabeto. O pior não é ser analfabeto, não é ser palhaço, não é ter falta de atitude política, não é deixar de ter projeto político em prol da sociedade. O pior é saber que pagaremos também com nossas contribuições por outros tantos Tiriricas espalhados pelo Brasil, que ganharam com ele ou com argumentos semelhantes; o pior é saber também que acabaram elegendo homens e mulheres com cara, voz, discurso, promessas, projetos de políticos sérios, diferente do Tiririca, mas tiveram ou podem ter uma história de corrupção, descompromissos com o eleitor brasileiro, que acreditou que poderiam ser diferentes de um simples palhaço que só serve para fazê-los rir quando a piada tem um pingo de graça e nada mais.

Não estou aqui justificando a candidatura de Tiririca com tais argumentos, mas tentando olhar para um regime político complexo que permite eleição de candidatos como este, em que, nessas horas, reclama-se por isso e tenta, às vezes, tarde demais corrigir as arestas do processo; enquanto outras arestas mais espinhosas - como aquelas onde permeiam os corruptos - vão continuar nos espetando a paciência, e fazendo muita gente acreditar que política é mesmo coisa suja – o que não é. É coisa muita séria! Alguns políticos é que não são. Junto com Tiririca, que ainda nos faz rir, nos fazem chorar de decepção!

jr

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sábado, 2 de outubro de 2010

SERRA, MARINA, DILMA e PLÍNIO

xxxx Falas desconcertantes e civilizadas xxx XXX

A câmera ainda incomoda mesmo quem está acostumado com a alta exposição do rosto nas telas. É o caso dos quatro presidenciáveis no último debate promovido pela Rede Globo. Se falar em palanque era uma prática muito forte para os grandes comícios nas campanhas, agora é a fala pública ao vivo e civilizada que vigora em frente às câmeras.

Não se fala diretamente para o eleitor, pelo menos não como antes, mas para uma máquina e, ainda assim, ter que suportar o controle do tempo, a condução e a intervenção do jornalista e as interpelações, alfinetadas e comentários deslocados dos adversários, além de uma plateia heterogênea ali presente. É com esse olhar que avalio o debate de quinta sem ter nenhuma pretensão de me colocar no lugar de especialistas de mídia, de política, de debates etc., mas apenas observando o mirante da linguagem, meu objeto de preocupação nas práticas de discursos.

De um modo geral e tomando como ponto de vista os outros debates, não vi nenhuma evolução daqueles para este no que tange à tranqüilidade dos candidatos. De fato, estavam todos ansiosos. Via-se o balançado involuntário de pernas de Dilma nos minutos que antecederam ao evento. Quem não ficaria nervoso? Quem não tremeria as pernas? Não é fácil falar sob pressão, não é fácil falar para públicos com anseios diferentes, não é fácil falar a partir desse lugar em que o sujeito está acuado. Acuado justamente porque é preciso atender a estes elementos todos, respeitá-los, e manter a postura sem “baixar o nível”. Sim, porque em política não se é de estranhar quando as agressões verbais deslizam-se para o espaço dos ataques pessoais, partidários e, por isso, fortemente ideológicos.

Se o discurso dessa ordem exige uma língua normativa, pura, correta, e livre de palavras de baixo calão, é preciso também que cada candidato fique atento para o que diz e como diz. Nesse sentido, por não se ter chance de correção - já que se está falando ao vivo -, são inevitáveis o “erro” de concordância como “vou aumentar o salário mínimo para R$ 600 real” (SERRA), a confusão de conceito e palavras - “tráfico/tráfego” (DILMA), o erro de cálculos “De cada 10 pessoas, 4 e 3...”(MARINA) esquecendo-se dos outros 3. Houve também um problema de localização, de situação geográfica, confusão de estados. Inúmeras vezes, Dilma e Marina misturaram os estados de SP e RJ, colocando-os num mesmo saco. Ora uma dizia “aqui em SP”, ora outra fala “lá no Rio” onde visitei o morro da rocinha, o morro X, o morro Y... revelando-se um problema de dêiticos. O fato é que o debate acontecia nas dependências da Globo em Jacarepaguá, bairro da Zona Oeste do Rio.

Por outro lado, a fala pública e higienizada com a qual se tenta dizer, o máximo possível, por via de uma língua transparente, caminha para uma língua metafórica. Eis porque Dilma falava do “mundo azul do Serra”, Marina se referia a uma “onda verde”, Plínio destacava “o país das mil maravilhas” ou, ainda, “acaba-se a batalha, continua a guerra” e tantas outras que povoavam suas vozes de figuras de sentido, de estilo, de linguagem. Serra e Marina foram os chefes de construções metafóricas.

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A voz macia de Marina apresentava como de costume um tom evangélico, libertário, maternal, buscando aproximar a identidade individualizada do eleitor que se reconhece na voz dela como sendo um dos tantos seus Luíses do Brasil, quando disse “Eu vi o seu Luis Eduardo na favela me pedindo...” como se tivesse falando de meu tio, do pai de meu amigo, do avô da minha esposa, seu vizinho etc. A voz estatística de Dilma trazida de outros debates se confunde com os números (“tivemos sete doações de partidos”) quando tenta responder à pergunta do Plínio sobre o fato de ela não marcar a figura do partido (PT) em sua campanha. Alguns da plateia riem e desestabilizam a postura séira de Dilma, que não consegue evitar seu nervosismo, depois disso.

Serra, por sua vez, consegue manter o ritmo, a frieza, frente às perguntas, respostas, réplicas, tréplicas, e até se mostra seguro dadas as experiências com essa ordem do dizer... [“uma cobra criada”, diria o Plínio se não tivesse que apresentar bons modos.] Mas Serra pensa que engana quando, na ânsia de vencer, apaga a história política do país, os projetos encaminhados, junta tudo e põe no mesmo saco, homogeneizando 8 anos ou mais ao nada feito e faz promessas milagrosas. Chega ao ponto de dizer “Eu não fico fazendo promessas, eu falo coisa que efetivamente vou fazer”. O conceito de promessas, portanto, vai por água abaixo.

Em suma, poderíamos dizer que as falas foram divididas da seguinte forma: Enquanto Marina ponderava suas palavras a fim de não cair no lugar comum da generalização, do esquecimento da história; Serra fazia o contrário, tentava apagar as políticas do governo anterior, contraditoriamente destacando alguns projetos positivos como sendo copiados de seu mandato enquanto governador de SP, e tende a profetizar. Já Plínio agia em função de devolver as perguntas quando na ocasião de sua fala era para responder ao que lhe foi questionado. Era parte de sua estratégia retórica fazer com que os adversários se expusessem; deixassem cair suas máscaras, entrar em contradição, atacá-lo. Experto, eu diria. Dilma, por sua vez, apresentou uma fala trêmula, pouco futurista, mais mantenedora das práticas do governo Lula, óbvio. Eis porque o apelo à história do governo, aos números, aos quadros estatísticos era bastante recorrente. No momento final do debate, eu diria que Marina foi humilde, agradecendo aos colegas e a Bonner pelo evento tal como Dilma; Serra agradece aos adversários, mas marca o egocentrismo destacando seu currículo, suas experiências, seu EU. Plínio faz ecoar nos últimos segundos uma voz interjetiva: “Viva o Brasil!”

Percebi, pois, que o uso da fala ao vivo espremida, real, sem cortes... é, às vezes, até constrangedora, porque ela faz se sobressaírem de forma nua e crua as apreensões, as angústias, as aflições, a imediatez, a tentativa de raciocínio objetivo, o desespero, as promessas improvisadas de candidatos que apelam para ter antes do controle do poder político, o controle do discurso, esse “poder pelo qual se luta” como disse Michel Foucault. Mas o discurso, a língua, as palavras deslizam-se porque são fluidas como água que escorre entre as frestas de um balaio trançado com fios de samambaia.

jr

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